O tio nudista
Luis Fernando Verissimo
O tio mais velho, Soriano, era advogado. Era a ele que a família recorria para assuntos jurídicos e aconselhamento em geral. Era o tio mais sério e o que tinha, no consenso familiar, a melhor cabeça. Outro tio, o mais simpático, tinha conexões. As crianças se criaram ouvindo aquilo: o tio Serginho tinha “conexões”. Circulava em vários meios, alguns não muito respeitáveis, e não era raro a discussão sobre alguma necessidade da família terminar com a frase “Quem sabe o Serginho conhece alguém...”. Esse alguém poderia ser tanto um delegado quanto um deputado ou um doleiro, ou um médico com prática não-convencional. E o tio Serginho sempre conhecia alguém providencial.
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O terceiro tio, em ordem de idade e de utilidade, era o Solis, que tinha – também era um consenso familiar – muito bom gosto. “Perguntem para o tio Solis” era a recomendação invariável que as crianças ouviam, em caso de dúvida estética. E não só as crianças se valiam do bom gosto do tio Solis. Que filme ver, o que ler, que padrão escolher para o sofá? Era só perguntar ao tio Solis, cujo bom gosto nunca falhava. “O Solis gostou” era uma espécie de certificado de qualidade na família.
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E havia o quarto tio. O Sandro. O Sandrão, mais moço em idade e maior em tamanho. A quem ninguém recorria para nada, salvo pegar alguma coisa de uma prateleira mais alta. Ele tentara estudar Direito, como o irmão mais velho, mas não conseguira terminar o curso. Não tinha vocação para o Direito. Não tinha vocação para nada. Não era simpático e bem relacionado, como o Serginho. Era sem graça e solitário, e às vezes desaparecia por longos períodos de tempo sem que as crianças soubessem onde ele andava. E não era um exemplo de cultura e refinamento como o tio Solis. As crianças não tinham o que imitar no tio Sandro. O tio Sandro era apenas o tio Sandro. O Sandrão, o bom Sandrão. Um tio completamente inútil.
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Mas um dia – sensação! Um dos meninos, naquela idade em que se pega até atlas anatômico atrás de sacanagem, viu numa revista de nudismo uma fotografia do tio Sandrão numa praia, pelado. Em meio a um grupo de homens e mulheres, todos pelados, conversando à beira-mar. O Sandrão se destacava pela altura, mas parecia estar bem integrado no grupo. Braços cruzados, sorrindo... Não era, obviamente, a primeira vez que fazia aquilo. O tio Sandrão era nudista!
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Depois de se aconselhar com o irmão mais velho, o advogado, a mãe das crianças resolveu que a agitação com a grande revelação só poderia ser enfrentada de uma maneira: francamente, com a verdade. Sim, seu irmão Sandrão era nudista. Os irmãos sabiam, não aprovavam, mas aceitavam, e as crianças também tinham que encarar o fato com naturalidade. A descoberta de que o tio Sandrão gostava de ficar nu com os outros não significava que deveriam tratá-lo de outra maneira. Ele continuava sendo o Sandrão, o bom Sandrão. E ela simplesmente nunca falara na preferência do irmão para os filhos antes porque, afinal, não era uma coisa para ser comentada com crianças. E, mesmo, não tinha a menor importância...
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Como não tinha a menor importância? De uma hora para outra, o tio Sandrão passou a ser o tio principal para as crianças. A sobrinha mais velha quis saber mais sobre a filosofia do nudismo do tio Sandrão (“Ela nunca quis conversar sobre a filosofia do Direito comigo” queixou-se o tio Soriano). O sobrinho menor passou a trazer colegas da escola para conhecer o tio nudista. Insistiu muito para o tio Sandrão tirar a roupa, até ser convencido que nudismo não se faz em qualquer lugar, mas seu prestígio entre os colegas continua alto. Ninguém mais na turma tem um tio nudista. E duas das crianças já decidiram: querem ser nudistas como o tio Sandrão.
Domingo, 17 de outubro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.